sexta-feira, 2 de julho de 2010

O REFLEXO

Mais uma relação chegava ao fim em pouco menos de seis meses. Paulo nutria-se do amor alheio, era incapaz de sentir algo relevante que não fosse por ele mesmo. Tinha um grande espelho em seu quarto, conseguira numa pechincha há alguns anos. Adorava ficar horas admirando a própria imagem, quase conversando com ela. Sua beleza realmente fascinava, causava inveja e admiração, mas também contribuía para torná-lo solitário. Já perdera a conta de quantas mulheres passaram pela sua vida e de quantas noites a dois, completamente vazias havia suportado.
Certa noite se debatia na cama, o sono se recusava a chegar, então resolveu ligar o computador e entrar numa sala de bate-papo. Um nick chamou sua atenção, parecia ser feito especialmente para ele: InSônia.
Conversou com aquela pessoa que como ele se ocultava atrás de uma tela e acabou descobrindo várias coisas em comum, os mesmos gostos, manias, frequentavam até os mesmos lugares. Ela lhe deu o endereço de um programa de conversação onde poderiam se conhecer melhor, disse que se chamava Sônia e despediram-se.
Dias depois, encontrou-a online e resolveram ligar a webcam. Quando a imagem dela apareceu, Paulo sentiu uma atração que nunca havia experimentado, sorriu, mas foi surpreendido por um grito de Sônia. Ela lhe apontou o fundo do quarto e disse ser idêntico ao dela, até o quadro na parede era o mesmo. Paulo riu, porém, prestando mais atenção, constatou que era verdade. Pediu a ela que pegasse a cam e a fosse posicionando pelo quarto e pareceu estar vendo o seu próprio.
Perguntou o endereço dela e pela resposta moravam na mesma casa.
Perplexo notou o seu espelho ao fundo do quarto de Sônia. Pediu a ela que desligasse a cam e fosse para frente dele. Ela consentiu e desligaram.
Paulo foi para frente do espelho, mas ao invés da sua imagem, era Sônia que estava lá. Aproximou-se, tocou o seu rosto através do vidro frio e a beijou.
Semanas depois, seu pai, aflito com a ausência do filho que não dava notícias, resolveu ir a sua casa e junto com alguns amigos de Paulo, arrombaram a porta.
Foram ao seu quarto, o computador estava ligado e ao fundo, aos pés do enorme espelho, as roupas de Paulo caídas no chão.
Aproximaram-se e o pai de Paulo pegou as roupas do filho. Olharam para o espelho: ele não refletia imagem alguma.

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