sexta-feira, 2 de julho de 2010

NOITE (UMA CRÔNICA DA RUA AUGUSTA)

Já escurecia quando desci pela rua Augusta sob uma garoa fina e constante e embora todos já tivessem saído de seus trabalhos e os estabelecimentos comercias estivessem fechados, outras formas de vida começavam a se fazer presentes ao cair de mais uma noite sem estrelas, chuvosa e paulistana.
Noto a miscelânea de pessoas, coisas e sons dos mais variados, uma comunicação específica, agressiva e típica entre o ruído agudo das buzinas causadas por motoristas impacientes que não se importam com a paquera dos carros à frente, o burburinho dos jovens e adolescentes às portas das casas noturnas e os gritos dos funcionários dos “inferninhos” que anunciam as atrações de sexo explícito com cerveja grátis.
Continuo a descer e o cenário caótico se torna mais visível quando se intercalam as casas noturnas frequentadas pelos jovens de classe média e os botequins e seus bêbados habituais.
Na calçada, mendigos enrolados em suas mantas encharcadas disputam espaço com os jovens que dividem uma garrafa de vinho, vodka ou refrigerante.
Tomo uma cerveja num daqueles bares de esquina e continuo observando o movimento, agora de um caminhão de lixo que passa em frente às luxuosas danceterias que refletem seus holofotes de luz prateada, enquanto um garoto de bermuda vermelha enrolado numa manta amarela pula em um pé só desafiando os carros e de certa forma, ao mesmo tempo, dentro e fora deste cenário confuso.
Fico observando este encontro de diversos mundos, de diversas tribos sem nenhuma relação entre elas a não ser estarem sob a mesma chuva que molha a todos indistintamente. Creio que as insistentes gotas d’água que caem sob as trevas são a única ligação coerente que une a todos e participa da vida que se move para todos os lados sem deixar de continuar em frente.
Aos poucos a chuva começa a ceder e a noite também, os ruídos vão diminuindo, as casas noturnas esvaziando e as tribos se dispersando.
O cenário muda e junto com os primeiros raios do sol a miscelânea de povos que interagiam sob as sombras encharcadas desaparece e dá lugar a outro, onde as pessoas nos seus carros agora buzinam para não chegarem atrasadas aos seus empregos e nas calçadas, indiferentes a tudo, os mendigos continuam a dormir sob suas mantas e o menino que à noite pulava num pé só desafiando os carros e o mundo agora dorme, quase imperceptível, em frente à porta de um restaurante que logo irá abrir.

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