quinta-feira, 19 de novembro de 2009

IMPLOSÃO

O céu amanheceu vermelho
Mas a cidade não parou
Tremores abalavam prédios
Na rotina embriagada
Andava em meio aos corpos
Caídos de árvores falidas
Precisava bater o ponto e corria
Mas o relógio o ultrapassava
Vidas impressas desmoronavam
Ruas tragadas, cavernas expostas
Carros, sapatos, pedras, farrapos
Ruínas de sonhos despedaçados
Castelos de ouro tornavam-se areia
Mares de vidas ressecados
Olhou para trás, não via saída
Tudo girava e o relógio parou
Caiu numa brecha estremecida
Deixou de bater o seu ponto
O céu desabou
E o mundo foi arquivado.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

AZUL MÓRBIDO

Mais um dia de sol triste
De céu azul entediante
Com formas breves, flutuantes
E lá no alto, traços escuros

Sombras vivas, livres dançam
Moldam um círculo animado
Abaixo o pó fere o andante
Que anda (fraco) a cada instante

O horizonte anda com ele
Um muro móvel inalcançável
E o sol rasga pouco a pouco
Sua pele seca, miserável

As brumas alvas se dispersam
E o azul se intensifica
O negro círculo, vivo, insiste
E o andante (forte) não desiste.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

ATRÁS DA JANELA INVISÍVEL

O barulho da chuva completava o rugido dos motores e os gritos estridentes das buzinas e sirenes.
Debaixo daquele viaduto eu tentava me acomodar bem no canto, aproveitando um pedaço do teto ruidoso.
À noite, aquilo parecia uma selva fantástica com grandes felinos de aço rugindo em torno de presas semimortas, as luzes vermelhas e os faróis eram olhos faiscantes que queimavam a escuridão.
O ruído e as luzes não incomodavam os outros, já agregados àquele cenário pirotécnico de aço, concreto e carne. Olhava aqueles veículos apressados, movidos por vidas mecânicas, indiferentes a tudo, a todos, até as suas próprias vidas, querendo apenas chegar em seus destinos no conforto do seu habitat.
Já ouvi dizer que existem diversos mundos paralelos, tanto numa mesma realidade como em tantas outras possíveis formando cascatas infinitas, separadas por janelas; onde muito raramente podemos, às vezes, notar as outras dimensões além da que nos encontramos.
Quantas vezes passei por lugares como este e olhei as estruturas de concreto, imaginando as técnicas utilizadas, o material empreendido, muitas vezes bem inferior ao que a obra merecia, mas nunca parei para notar o pequeno mundo destas pessoas que hoje fazem parte do meu próprio.
Já fui um grande engenheiro, muito bem sucedido. Dormia sob finas sedas, em camas caras sob tetos luxuosos indiferente a qualquer que fosse o clima lá fora e hoje procuro me desviar inutilmente dos respingos das poças, me agarrando a este pequeno trapo como se fosse o único resquício que sobrou da minha dignidade.
Era o responsável direto pela construção de muitos destes viadutos, inclusive este que agora me serve de abrigo, mas permiti que as drogas entrassem na minha vida e juntamente com a ganância, que é outra droga talvez muito maior que as químicas, consumissem tudo como cupins que devoram a madeira, até não sobrar nada.
Não há um dia sequer em que eu não pense como teria sido a minha vida se tivesse tomado outro rumo, se não permitisse que as drogas me consumissem até sobrar apenas uma sombra.
Uma agitação anormal e as buzinas que berravam com histeria me interromperam de meus devaneios. Notei que o sinal já tinha dado passagem aos carros, mas uma BMW parada ao meu lado, tão perto que acho ter sido possível tocá-la, empacava o trânsito nervoso.
Tentei olhar através do vidro fumê a pessoa que se ocultava. Um frio estranho me cortou por dentro, enquanto o vidro elétrico começava a baixar. Uma mão conhecida se pôs para fora e um rosto apareceu:
Era o meu, olhando para os meus próprios olhos.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

DESPERTAR

À noite morna, num céu de ébano, dorme a deusa num leito cósmico.
Cobrindo mundos sua pele eterna contorna as linhas do infinito.
Um dia acorda se contorcendo a cada toque, a cada choque e vai crescendo, tomando espaço, quebrando o caos com orgasmos orquestrados no vazio.
Então cheia de sede, de fome e frio, abre os olhos e sorri: fazendo surgir as estrelas.

sábado, 18 de julho de 2009

AR CONDICIONADO

Domamos este pégaso invisível
Cavalgando pulmões, condicionado
Corcel impoluto, contido, acuado
Cercado por grades de pragas fincadas

Entre tosses e cochichos, expelido
Um relincho revolto sopra o vento
Vírus, bactérias, mentiras, intrigas
Dedicamos-lhe nossas pestes etéreas

Amamos a moléstia e a miséria
Crias da rotina envenenada
Do frio gerado sai o fogo curtido
E nesse insano desfecho destrutivo

[Incendiários do nosso destino]

As cinzas devoram o cinzeiro
E assim vivemos e morremos
Engolindo as chagas deste ar cativo

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Olhos no espelho

Naquela moldura fria, seu reflexo intrigava
Olhos mudos sob o lago envidraçado
Invejava todos que o viam por inteiro
Só lhe era permitido seu arquétipo no espelho

Analisou por horas o oposto contrastante
O egófago degustava seu sangue numa taça
A cada gole era reflexo, indigente, sepultado
Viníferos vapores embaçavam sua lente

No ápice afronésico quebrou a sua imagem
Tingiu de vinho sangue o mosaico estancado
Um corpo escarcalhado, boiava imergindo
Afundando em águas de aço cristalino

O real absoluto foi um sonho empreendido
Voltava consciente após a sóbria estiagem
E a verdade oculta assim estava revelada:
Era o reflexo e destruiu sua própria alma.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

ELA

Minha missão era salvar o mundo
A tua me preparar para ela
Vim para esclarecer, trazer a luz
Mas, através da tua luz cheguei.

Tantas vezes senti frio, até medo
Mas tua força me revigorou
Aqueceste-me no frio,
Confortaste-me na dor,
Incentivaste-me a seguir em frente

Pelo amor eu vim, por amor vivi
E todo amor que tive doei
Mas antes, doaste a mim o teu
Todo o meu sangue entreguei
Mas tu deste-me antes teu leite

Foste escolhida para preparar-me
Guardar-me e ensinar-me
Porque no momento certo
Eu prepararia, doaria e ensinaria

Quando cheguei ao calvário
No ápice de meu martírio
Tuas lágrimas derramaram
Estavas triste, inconformada
Estavas perdendo teu filho

Naquele momento não notaste
Que cumpriste comigo a missão
De salvar todos os futuros filhos
E hoje, como eu, podem chamá-la:
Mãe!