Ele desce à Terra e caminha sobre um rio de luto que cobre tudo trazendo ruínas e corpos carregados sob seus pés, tenta tocar os corpos para ressuscitá-los, mas eles afundam e quase o carregam para o breu profundo.
Ouve, dos becos ocultos nas sombras, o ladrar dos cães que brigam por um pedaço de carne, enquanto outros uivam procurando a lua que não existe mais. Um dia ele já multiplicou os peixes, mas agora estão todos podres espalhando seu odor pela noite enevoada. Volta a se fixar no horizonte e vê luzes rubras quase imperceptíveis, resolve segui-las e o cenário se transforma do charco para a secura absurda adornada pelas chamas parasíticas devorando o que restou em meio a cinzas e escombros até sobrar apenas um vazio chamuscado.
Lembrou-se da época além da existência, das luzes e das trevas onde seu Pai desenhava, em folhas feitas da matéria exalviçada dos sonhos, figuras engraçadas com cores e variedades infinitas e a cada traço a diversidade era maior: mundos circulavam entre estrelas ígneas contendo todo tipo de substâncias que se mesclavam formando outras num mosaico crescente e vivo. Da última vez que viu o Pai ele já desistira dos desenhos, seus papéis jogados no espaço flutuavam e se dissolviam enquanto se despedia de costas e caminhava até desparecer no vácuo umbrático. Ele resolve descer à Terra esperando encontrar os desenhos perdidos e as crianças que sempre o aguardavam para ouvir suas histórias, mas elas já haviam crescido.
Ele caminha sobre ruas ruidosas onde veículos se apressam tentando chegar sabe-se lá onde com seus faróis digladiando na escuridão, como chifres de luz saídos de búfalos metálicos com seus mugidos estridentes enquanto no céu raios cortam a lona noturna e a chuva cai escura como se a noite sangrasse. Gotas turvas escorrem sobre seu rosto.
Talvez não fosse culpa dele, pois o mundo mudou, as crenças mudaram e a esperança há muito se tornou apenas um nome sem sentido. Um dia ele veio, deixou seu recado e a promessa de retornar. E todos os esperaram, imaginando seu retorno, cultivando suas vidas doentes, apenas com a ilusão de que alguma coisa havia mudado.
Ele senta-se sobre a calçada e tenta compreender aquele caos sacrílego, aquele mosaico impossível quando nota que o mundo que veio salvar já não o espera mais. Percebe que está invisível a tudo e a todos, como se nunca tivesse existido, nunca tivesse descido à Terra. Então ele estende as mãos e grita e seus gritos ressoam no mundo, tremendo os mares e todas as águas, tremendo as montanhas e os vales, mas todos prosseguem indiferentes no seu caos. Ninguém mais pode ouvi-lo.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
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