Abriu o jornal. De novo a mesma ladainha: a devastação da Amazônia, a impunidade das madeireiras, as queimadas.
À frente do seu portão aquela árvore antiga despejando a folhagem seca em sua bela varanda, além de atrapalhar a visão e dificultar a saída do seu carro.
_Maldita árvore velha! Só me causa transtornos! - dizia enquanto abria o portão. Este bairro já é por demais arborizado e não posso arrancar este entulho pré-histórico porque a Prefeitura proíbe. Devastam a Amazônia e eu é que pago por isso? Ah, mas um dia este troço cai. Ah se cai! Aí eu quero ver quem vai pagar o conserto do meu portão. Os malditos ecologistas? A droga da Prefeitura?
E praguejando saiu para o trabalho. O dia estava nublado e na volta para casa passou pelas ruas arborizadas apreciando a visão das folhagens ao balanço do vento, mas assim que se lembrou da incômoda árvore já voltava o mau humor:
_Minha varanda já deve estar cheia de folhas secas. Praga!
Quando parou no semáforo, foi abordado por dois homens que com uma arma o obrigaram a baixar o vidro.
_Abre a porta idiota, anda logo! – disse um dos bandidos com a arma na mão.
_Si-sim - respondeu. Calma, podem levar o que quiserem, mas não atirem!
_Cala a boca! Abre essa porra logo! – disse o bandido sem a arma.
Ele destravou as portas e os dois entraram. O mais afobado encostou a arma na cabeça dele e gritou:
_Pisa!
__ Mas pra onde?
_Pisa seu merda! Tamo com pressa, segue reto.
Ele pisou com a arma encostada na cabeça.
O outro sujeito sem a arma falou:
_No primeiro vinte e quatro horas a gente pára e pega a grana desse mané aí.
Ele entrou em pânico, não tinha cartão algum. O que fazer? Assim que vissem que não tinha nada iriam matá-lo na certa. Arriscou:
_Não estou com o car-tão do ban-co, desculpem...
_O que? Seu lixo! – disse o bandido com a arma. A gente vai estourá sua cabeça! Pára o carro aí na esquina, pára logo!
_ Deixa eu vê essa carteira aí, seu bosta! – disse o outro bandido. Se cê mentiu... Puta-que-pariu! Esse desgraçado não tem porra nenhuma! Só umas folha de cheque e umas nota.
_Cê não presta pra nada seu merda, cê já era!- gritou o que segurava a arma.
_Esperem! Por favor, não façam isso! Olha, minha casa fica bem aqui perto, eu tenho dinheiro num cofre, tenho objetos de valor, vocês podem levar tudo, vai ser rápido, juro!
_Ah – respondeu o bandido sem a arma. Então cê guarda a grana num cofre? Tá achando a gente com cara de otário? Assim que cê chegá na sua casa vai chamá os cana, alarmá os vizinho.
_Não, eu moro sozinho, minha casa é bem afastada da vizinhança.
_Já me liguei no seu tipo – disse bandido com a arma. Cê é um desses coroa cheios da grana que se acham melhor que os outro.
_Não, isso não é verdade! Eu trabalho muito duro pra conseguir o que tenho e...
_Cala a boca mané! Gritou o que segurava o revólver, dando-lhe uma coronhada que fez sua cabeça sangrar.
_ Ô mano, calma aí!- disseo o outro bandido. O cara pode tá falando sério. Esse velho deve tê muita coisa de valor mesmo e depois ele sabe que se vacilá morre. Não sabe velhote?
_ Ca-claro, podem confiar.
_ Tá bom – respondeu o que tinha o revólver - mas se tu tivé mentindo... Pisa aí! Já perdemo tempo demais.
O céu estava escuro, o vento soprava forte e já começava a chover. Logo ele avistou a casa.
_É ali.
_Onde? – respondeu o bandido sem a arma.
_Ali, perto daquela figueira velha.
_Nossa! Que casarão! – disse o que segurava a arma. Cê mora sozinho memo?
_Moro.
_Velho sovina, cê não vale nem cuspe. Vamo encostá – disse o outro bandido.
_Tenho que abrir o portão, podem esperar um pouco?
_Vai logo velho – gritou o bandido com a arma - a gente tá com o cano apontado pra sua cabeça, uma pisada em falso sua e...
_Sim, podem deixar, vou rápido.
Saiu em direção ao portão, enquanto os dois o seguiam com os olhos. A arma por cima do vidro.
A árvore balançava forte, a chuva aumentara bastante e alguns galhos caíram em sua varanda. Ele segurou o terno encharcado pela chuva e quase arrancado pelo vento.
O pequeno trecho que caminhara sob a chuva até a entrada da casa parecia interminável, enfim chegou ao portão e assim que começou a abri-lo um enorme estrondo o fez voltar-se para trás. A grande figueira estava caída em cima do carro, esmagado junto com os seus algozes.
Pela primeira vez contemplou toda a magnitude daquela árvore que até há pouco odiava. Traduzir o que seus olhos diziam naquele instante seria impossível.
Uma folha caiu em seu ombro, ele a pegou e notou que ainda estava verde.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
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7 comentários:
Cara, o conto é bacana, porém falta identificar melhor os diálogos, quem tá falando o quê e coisa e tal. Aliás, na estória tava chovendo, ou não? Eu fiquei confuso com essa parte. Mas o enredo é legal.
Gostei, muito interessante o tema.
Parabéns!
Muito bonito. Parabens! ♥
Olha que interessante, vi uns elementos que acabei de colocar em meu conto no seu conto!!!! rs
Ahh as mentes fantásticas!
Interessante, os diálogos fazem a gente não querer parar de ler. :o
Olá!
Adorei seus contos, vc é muito criativo =)
Beijos!
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