segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Folhas secas

Abriu o jornal. De novo a mesma ladainha: a devastação da Amazônia, a impunidade das madeireiras, as queimadas.
À frente do seu portão aquela árvore antiga despejando a folhagem seca em sua bela varanda, além de atrapalhar a visão e dificultar a saída do seu carro.
_Maldita árvore velha! Só me causa transtornos! - dizia enquanto abria o portão. Este bairro já é por demais arborizado e não posso arrancar este entulho pré-histórico porque a Prefeitura proíbe. Devastam a Amazônia e eu é que pago por isso? Ah, mas um dia este troço cai. Ah se cai! Aí eu quero ver quem vai pagar o conserto do meu portão. Os malditos ecologistas? A droga da Prefeitura?
E praguejando saiu para o trabalho. O dia estava nublado e na volta para casa passou pelas ruas arborizadas apreciando a visão das folhagens ao balanço do vento, mas assim que se lembrou da incômoda árvore já voltava o mau humor:
_Minha varanda já deve estar cheia de folhas secas. Praga!
Quando parou no semáforo, foi abordado por dois homens que com uma arma o obrigaram a baixar o vidro.
_Abre a porta idiota, anda logo! – disse um dos bandidos com a arma na mão.
_Si-sim - respondeu. Calma, podem levar o que quiserem, mas não atirem!
_Cala a boca! Abre essa porra logo! – disse o bandido sem a arma.
Ele destravou as portas e os dois entraram. O mais afobado encostou a arma na cabeça dele e gritou:
_Pisa!
__ Mas pra onde?
_Pisa seu merda! Tamo com pressa, segue reto.
Ele pisou com a arma encostada na cabeça.
O outro sujeito sem a arma falou:
_No primeiro vinte e quatro horas a gente pára e pega a grana desse mané aí.
Ele entrou em pânico, não tinha cartão algum. O que fazer? Assim que vissem que não tinha nada iriam matá-lo na certa. Arriscou:
_Não estou com o car-tão do ban-co, desculpem...
_O que? Seu lixo! – disse o bandido com a arma. A gente vai estourá sua cabeça! Pára o carro aí na esquina, pára logo!
_ Deixa eu vê essa carteira aí, seu bosta! – disse o outro bandido. Se cê mentiu... Puta-que-pariu! Esse desgraçado não tem porra nenhuma! Só umas folha de cheque e umas nota.
_Cê não presta pra nada seu merda, cê já era!- gritou o que segurava a arma.
_Esperem! Por favor, não façam isso! Olha, minha casa fica bem aqui perto, eu tenho dinheiro num cofre, tenho objetos de valor, vocês podem levar tudo, vai ser rápido, juro!
_Ah – respondeu o bandido sem a arma. Então cê guarda a grana num cofre? Tá achando a gente com cara de otário? Assim que cê chegá na sua casa vai chamá os cana, alarmá os vizinho.
_Não, eu moro sozinho, minha casa é bem afastada da vizinhança.
_Já me liguei no seu tipo – disse bandido com a arma. Cê é um desses coroa cheios da grana que se acham melhor que os outro.
_Não, isso não é verdade! Eu trabalho muito duro pra conseguir o que tenho e...
_Cala a boca mané! Gritou o que segurava o revólver, dando-lhe uma coronhada que fez sua cabeça sangrar.
_ Ô mano, calma aí!- disseo o outro bandido. O cara pode tá falando sério. Esse velho deve tê muita coisa de valor mesmo e depois ele sabe que se vacilá morre. Não sabe velhote?
_ Ca-claro, podem confiar.
_ Tá bom – respondeu o que tinha o revólver - mas se tu tivé mentindo... Pisa aí! Já perdemo tempo demais.
O céu estava escuro, o vento soprava forte e já começava a chover. Logo ele avistou a casa.
_É ali.
_Onde? – respondeu o bandido sem a arma.
_Ali, perto daquela figueira velha.
_Nossa! Que casarão! – disse o que segurava a arma. Cê mora sozinho memo?
_Moro.
_Velho sovina, cê não vale nem cuspe. Vamo encostá – disse o outro bandido.
_Tenho que abrir o portão, podem esperar um pouco?
_Vai logo velho – gritou o bandido com a arma - a gente tá com o cano apontado pra sua cabeça, uma pisada em falso sua e...
_Sim, podem deixar, vou rápido.
Saiu em direção ao portão, enquanto os dois o seguiam com os olhos. A arma por cima do vidro.
A árvore balançava forte, a chuva aumentara bastante e alguns galhos caíram em sua varanda. Ele segurou o terno encharcado pela chuva e quase arrancado pelo vento.
O pequeno trecho que caminhara sob a chuva até a entrada da casa parecia interminável, enfim chegou ao portão e assim que começou a abri-lo um enorme estrondo o fez voltar-se para trás. A grande figueira estava caída em cima do carro, esmagado junto com os seus algozes.
Pela primeira vez contemplou toda a magnitude daquela árvore que até há pouco odiava. Traduzir o que seus olhos diziam naquele instante seria impossível.
Uma folha caiu em seu ombro, ele a pegou e notou que ainda estava verde.

7 comentários:

Rogério disse...

Cara, o conto é bacana, porém falta identificar melhor os diálogos, quem tá falando o quê e coisa e tal. Aliás, na estória tava chovendo, ou não? Eu fiquei confuso com essa parte. Mas o enredo é legal.

Unknown disse...

Gostei, muito interessante o tema.
Parabéns!

Anônimo disse...

Muito bonito. Parabens! ♥

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
The unknown human who sold the world disse...

Olha que interessante, vi uns elementos que acabei de colocar em meu conto no seu conto!!!! rs

Ahh as mentes fantásticas!

Anônimo disse...

Interessante, os diálogos fazem a gente não querer parar de ler. :o

Anônimo disse...

Olá!
Adorei seus contos, vc é muito criativo =)
Beijos!