Parava perto da janela todos os dias. E ficava lá, vestida com um manto negro, num luto que vinha de dentro e tomava-a inteira. Ali, debruçada com um porta-retratos nas mãos, olhava-o como que invocando aquela figura para o mundo real. Uma foto de alguém que amou muito, mas que lhe foi tirada pela fria lâmina da vida. Sim, da vida, pois a vida e a morte são gêmeas siamesas.
Todos os dias, aquela estranha mulher descia as escadas daquele sobrado, atravessava a rua e ia comprar o café da manhã. Preparava-o com zelo. Tomava-o. Lia um romance que nunca terminava e depois, chegada a noite, ficava lá, por horas, imóvel olhando aquele retrato até suas lágrimas se esgotarem e as sombras da noite se misturarem com a dela. Caia em sono profundo e dormia, muitas vezes ali mesmo.
A sua silhueta escura já fazia parte da parede onde se projetava todas as noites naquele mesmo local. Nunca recebia uma visita, mas portava-se estranhamente como se estivesse esperando sempre alguém. Alguém que nunca aparecia.
O tempo passou, os dias e as noites se mesclavam e se alternavam.
Anos depois, um comprador se instalou naquele sobrado. Ali era o local perfeito para abrir o seu negócio, a rua inteira era comercial e apenas aquele casarão se mantinha intacto. A decoração peculiar precisava apenas de algumas mãos de tinta e uma ou outra reforma, nada que exigisse muitos gastos. Porém, havia uma insistente mancha escura, uma silhueta no canto esquerdo do quarto perto da janela que por mais que pintassem não havia jeito de apagar. A silhueta de uma mulher olhando para algo que parecia ser... um porta-retratos.
Qualquer um que tentasse trabalhar ali era invadido por um sentimento de solidão terrível, tão insuportável que impedia qualquer negócio de se desenvolver.
Os moradores da redondeza, diziam que há muitos anos uma mãe solteira ocupava aquele mesmo recinto e um dia, tendo seu filho adoecido não conseguia socorro, pois os hospitais não aceitavam a criança devido ao enorme preconceito da época e quando a mãe finalmente conseguiu interná-lo já era muito tarde. Depois, aquela mãe trancou-se no quarto e nunca mais saiu de lá, mas as pessoas às vezes a viam à janela, segurando um porta-retratos, provavelmente a única lembrança que tinha da criança.
Assim, depois de várias desistências em comprar aquele sobrado, ele acabou completamente abandonado e mais tarde, demolido.
Passaram-se alguns anos e resolveram erguer ali um hospital infantil. Havia na cidade muitos casos de mães que perdiam seus bebês prematuramente, por falta de recursos. Porém, assim que o hospital foi erguido muita coisa mudou. Parece que aquele local foi destinado para isso, para se construir algo que tivesse cheiro de vida.
Muitos juravam que num daqueles quartos voltado para a rua, quando uma criança convalescia, uma grande silhueta projetava-se atrás do leito e ficava ali junto a ela. A sombra de uma mulher inclinada em direção à cama, como se interagisse com a criança adoecida, permanecendo ali até anoitecer, quando voltava a se fundir com as sombras. No dia seguinte a criança amanhecia curada! Mito ou não, o fato é que aquele leito tornou-se a UTI do hospital, de onde até hoje nenhuma criança pereceu por mais enferma que estivesse.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
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6 comentários:
Incontestável elegância na narrativa, sem dúvida. Parabéns. O tema, apenas, me pareceu difícil, uma vez que é muito visitado - por escritores amadores, profissionais, clássicos, etc. Tarefa corajosa, esta que você levou a cabo, com talento, a meu ver.
Se me permite, humildemente sugiro apenas uma breve revisão (uma crase que sobrou aqui, um acento perdido ali, uma frase que poderia ser construída de modo mais satisfatório). Coisa pouca, garanto, que tem a ver também com gosto pessoal e, portanto, não deve nem ser tomada como crítica. Apenas que seu texto mereceu minha atenção. Continue no caminho, peregrino.
Abraços,
Marcos.
Que bom ler pessoas que respeitam a palavra e dela constróem as janelas do cotidiano, como você. Parabéns!
muito interessante. merece ser mais lapidado.
Eu simplesmente amei essa. Abraço.
Amigo... muito emocionante esse, me tocou profundamente! Parabéns pelo belo talento e que venham mais e mais por aí.
Beijos,
Pati
Muito tocante e de muito bom gosto. Parabéns!
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