O barulho da chuva completava o rugido dos motores e os gritos estridentes das buzinas e sirenes.
Debaixo daquele viaduto eu tentava me acomodar bem no canto, aproveitando um pedaço do teto ruidoso.
À noite, aquilo parecia uma selva fantástica com grandes felinos de aço rugindo em torno de presas semimortas, as luzes vermelhas e os faróis eram olhos faiscantes que queimavam a escuridão.
O ruído e as luzes não incomodavam os outros, já agregados àquele cenário pirotécnico de aço, concreto e carne. Olhava aqueles veículos apressados, movidos por vidas mecânicas, indiferentes a tudo, a todos, até as suas próprias vidas, querendo apenas chegar em seus destinos no conforto do seu habitat.
Já ouvi dizer que existem diversos mundos paralelos, tanto numa mesma realidade como em tantas outras possíveis formando cascatas infinitas, separadas por janelas; onde muito raramente podemos, às vezes, notar as outras dimensões além da que nos encontramos.
Quantas vezes passei por lugares como este e olhei as estruturas de concreto, imaginando as técnicas utilizadas, o material empreendido, muitas vezes bem inferior ao que a obra merecia, mas nunca parei para notar o pequeno mundo destas pessoas que hoje fazem parte do meu próprio.
Já fui um grande engenheiro, muito bem sucedido. Dormia sob finas sedas, em camas caras sob tetos luxuosos indiferente a qualquer que fosse o clima lá fora e hoje procuro me desviar inutilmente dos respingos das poças, me agarrando a este pequeno trapo como se fosse o único resquício que sobrou da minha dignidade.
Era o responsável direto pela construção de muitos destes viadutos, inclusive este que agora me serve de abrigo, mas permiti que as drogas entrassem na minha vida e juntamente com a ganância, que é outra droga talvez muito maior que as químicas, consumissem tudo como cupins que devoram a madeira, até não sobrar nada.
Não há um dia sequer em que eu não pense como teria sido a minha vida se tivesse tomado outro rumo, se não permitisse que as drogas me consumissem até sobrar apenas uma sombra.
Uma agitação anormal e as buzinas que berravam com histeria me interromperam de meus devaneios. Notei que o sinal já tinha dado passagem aos carros, mas uma BMW parada ao meu lado, tão perto que acho ter sido possível tocá-la, empacava o trânsito nervoso.
Tentei olhar através do vidro fumê a pessoa que se ocultava. Um frio estranho me cortou por dentro, enquanto o vidro elétrico começava a baixar. Uma mão conhecida se pôs para fora e um rosto apareceu:
Era o meu, olhando para os meus próprios olhos.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
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